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Escolinha de Nova Iguaçu leva agroecologia à Baixada Fluminense

20/10/2020
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Na região da Baixada Fluminense há predominância de agricultores familiares, sendo que na área de abrangência da Escolinha de Agroecologia cerca de 50% são oriundos de movimentos de ocupação organizada, alguns gerando projetos oficiais de assentamento. Note-se que os movimentos de ocupação na região são de duas épocas: início dos anos 1960, com forte atuação das Ligas Camponesas, e início da década de 1980, com a abertura política e a crise econômica que gerou razoáveis índices de desemprego. Nesse contexto, diversos desempregados urbanos, percebendo-se de origem rural (muitos oriundos da região Nordeste, Norte Fluminense, Minas Gerais e Espírito Santo), viram no retorno à terra um meio de viabilização econômica. Esses movimentos resgataram para a agricultura extensas áreas que teriam sido em poucos anos totalmente loteadas, caso não tivessem sido ocupadas.

Além desses movimentos de ocupação, a região é composta historicamente com predominância de posseiros e pequenos estabelecimentos rurais. A intensa aglomeração populacional dos centros urbanos próximos têm relegado o setor rural a uma grande ausência de políticas públicas.

HISTÓRICO DA ESCOLINHA
A produção em bases sustentáveis, além de ser importante para a viabilidade econômica e social do setor rural e para os consumidores, toma especial dimensão nesta região, tendo em vista que boa parte das áreas rurais está localizada no entorno de áreas de proteção ambiental. Além do mais, práticas de transição agroecológica vêm sendo adotadas há vários anos na região, fato este favorecido pelo baixo poder aquisitivo dos agricultores locais, pela dificuldade de acesso às grandes fornecedoras de insumos sintéticos, pela estrutura fundiária e pela proximidade com o consumidor, que influencia na busca de qualidade pelo produtor. A instalação de uma Feira da Roça em 2006, antiga reivindicação dos agricultores atendida pela Prefeitura de Nova Iguaçu, deu mais visibilidade à produção local, ao mesmo tempo em que valorizou os produtos obtidos de forma mais “natural”.

A iniciativa de promover a Escolinha de Agroecologia foi da CPT-R – Comissão Pastoral da Terra/ Regional Baixada Fluminense, baseando-se em experiência similar desenvolvida na região norte do Estado do Rio de Janeiro. A experiência começou em 2007, em parceria com a Prefeitura de Nova Iguaçu. Ao longo de seus quatro anos, as parcerias foram aumentando: a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Rio de Janeiro (Emater-Rio) participa com instrutores e compartilha a coordenação pedagógica com a CPT; a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa CNPAgrobiologia) cede instrutores e recebe todos os anos os alunos da Escolinha para uma visita à sua fazenda experimental; a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro Olericultura) também recebe os alunos em visitas técnicas; o Instituto Logus – Solar de Pesquisas Holísticas, de Minas Gerais, envia instrutor para as aulas do segmento de Homeopatia aplicada à Agropecuária; o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Nova Iguaçu participou da coordenação geral em alguns momentos; a UFRRJ apoiou a Escolinha cedendo ônibus para algumas visitas técnicas, além de instrutores; as Secretarias de Agricultura de Japeri e Queimados cedem suas kombis para o transporte de alunos; o MAPA – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – viabiliza as atividades da Escolinha através de apoio financeiro, assim como as Ongs CISV e ASPTA. A Escolinha também se integra ao projeto de Banco Comunitário de Sementes de Adubos Verdes, do MAPA.

A experiência da Escolinha de Agroecologia foi apresentada em novembro de 2008 no Encontro de Agroecologia da Região Metropolitana, na UFRRJ, tendo tido grande repercussão, e em 2009 foi umas das cinco experiências selecionadas no Rio de Janeiro para ser apresentada no Seminário Regional de Construção do Conhecimento Agroecológico, realizado em Viçosa, em outubro de 2009.

Em agosto de 2009, a experiência recebeu o prêmio Baixada, na categoria Meio Ambiente, do Fóruns de Cultura da Baixada Fluminense. O prêmio destaca pessoas ou experiências com significativa contribuição para diversos temas na Baixada Fluminense, o que contribui para a visibilidade da experiência e abre as portas para novas parcerias. No ano passado, a Escolinha também foi agraciada com o Prêmio CREA-RJ de Meio Ambiente 2010, concedido a personalidades ou entidades que promovem ações em defesa do meio ambiente.

ABRANGÊNCIA E BENEFICIÁRIOS.
A Escolinha de Agroecologia vem aumentando a abrangência de sua intervenção a cada ano. Em 2007 e 2008, ficou restrita a alunos do município de Nova Iguaçu, com predominância da comunidade de Marapicu. Em 2009 atinge alunos dos Municípios de Nova Iguaçu (9 comunidades rurais), Queimados (2 comunidades rurais), Japeri (4 comunidades rurais), Mesquita e Belford Roxo. Em 2010, seus alunos são oriundos de Nova Iguaçu (8 comunidades), Japeri (4 comunidades), Queimados (3 comunidades), Paracambi (2 comunidades) e Duque de Caxias (1 comunidade).

público beneficiário é composto prioritariamente por agricultores, mas também participam agentes de pastoral, ambientalistas, técnicos de prefeitura e estudantes de ciências agrárias. Há equilíbrio entre a participação de homens e mulheres.

Dentre os alunos, existe um número considerável de lideranças de associações de agricultores e de membros de Conselhos Municipais de Desenvolvimento Rural. Essa composição não foi buscada propositalmente, mas quando se abrem as inscrições, quem frequenta as reuniões de Conselho ou de Associações tem mais oportunidade de ficar sabendo que a Escolinha vai acontecer.

Também é importante ressaltar que há entre os alunos um número considerável de participantes das Feiras da Roça de Nova Iguaçu e de Queimados.

Em 2008, receberam diploma de conclusão de curso 26 alunos. Em 2009, foram 43.

TEMAS E METODOLOGIAS
A grade horária e os temas a serem abordados são decididos entre os parceiros promotores da Escolinha. Entre os temas estão: O que é a agroecologia; manejo ecológico do solo, práticas conservacionistas, adubação verde, compostagem e substratos alternativos para sementeiras; vermicompostagem; águas — conservação e legislação; visão crítica sobre história dos agrotóxicos e transgenia; identificação de pragas e doenças das plantas; métodos alternativos de controle de pragas e doenças; sistemas agroflorestais; homeopatia aplicada à agropecuária; piscicultura; criação de aves semiconfinadas; saneamento rural, entre outros. Procura-se mesclar aulas teóricas (ilustradas com vídeos de curta duração e apresentações digitais) e práticas, com demonstrações de método e excursões.

Todas as etapas são fotografadas, e as fotos das aulas práticas são utilizadas depois em sala de aula para suscitar debates sobre as mesmas. Para cada tema há uma ou mais apostilas correspondentes, preparadas para o evento ou aproveitando materiais didáticos já existentes dos diversos parceiros.

As aulas têm periodicidade quinzenal e durante 6 horas cada, com intervalo para almoço, que é fornecido pela própria Escolinha.

Em 2010, foi adotado pela primeira vez, em caráter experimental, um “trabalho de conclusão de curso”, ou seja, cada aluno — ou grupo de alunos — experimentou em sua propriedade uma das práticas agroecológicas discutidas durante o ano, cujo resultado foi debatido no mês de dezembro.

AVALIAÇÃO DE RESULTADOS
Muitos resultados só serão mensuráveis nos próximos anos. Mas já é possível perceber que a Escolinha de Agroecologia vem cumprindo com seus objetivos. Novos produtos vêm aparecendo nas feiras da roça, tais como ovos e húmus de minhoca, há produção de húmus e composto em algumas propriedades rurais, ex-alunos têm dado apoio aos vizinhos no sentido de orientá-los em determinadas práticas, além de as adotarem em suas propriedades, o próprio discurso dos produtores ao descrever seus produtos aos compradores, tudo isso demonstra uma inserção em outro modo de produção que não o convencional. Nas feiras da roça, é comum os produtos serem apresentados como “produzidos sem agrotóxicos, de forma natural”, o que sem dúvida chama atenção sobre eles. Na Feira da Roça de Queimados, iniciada este ano, metade dos produtores é aluno ou ex-aluno da Escolinha, e isto sem dúvida gerou uma confluência de objetivos e de modo de ação que não precisaram ser previamente combinados, simplesmente aconteceram. E de forma geral, pode-se dizer que há um resgate em termos de autoestima e identidade rural.

Há também depoimentos de agricultores que abandonaram o uso de herbicidas. Este é o depoimento de Maria Bethânia, agricultora do Marapicu, sobre o marido: “O Ronaldo sempre usou Roundup como água, usava veneno de vários tipos. Chegou a ficar doente, ninguém sabia o que ele tinha e depois ele aceitou que era o excesso de Roundup no corpo. Depois de assistir as aulas de homeopatia, se libertou de todos esses venenos. Não usa mais. Começamos a usar compostagem, e isso é um ponto muito positivo, pois não foi fácil mudar aquela cabeça . Antes estávamos tão habituados a comprar aqueles produtos que tínhamos até ficha na loja, mas agora ele não quer nem saber, o negócio dele é agroecologia e biodiversidade. Isso é importante colocar; que é estar libertando o produtor dos ‘defensivos agrícolas’. Pra mim foi uma vitória.”

A abrangência da experiência em termos de número de comunidades atingidas e a frequência de um bom número de alunos, com uma participação bastante equilibrada de homens e mulheres, sem interrupção, vêm garantindo a formação de multiplicadores, o que faz esperar um bom impacto nos próximos anos, amadurecendo o processo de transição agroecológica ora em curso. O efeito multiplicador foi detectado em diversas comunidades, onde os alunos da Escolinha vão trocando seus conhecimentos com os vizinhos. Sobre alguns produtores da comunidade de Marapicu que nunca frequentaram a escolinha e começaram a diminuir o uso de agrotóxicos, Maria Auxiliadora, presidente da Associação, diz: “foi de tanto a gente falar; falar e falar, e dizer dos prejuízos à saúde”.

TROCA DE EXPERIÊNCIAS
A participação de um número considerável de lideranças de associações de agricultores e de conselheiros municipais de desenvolvimento rural, além dos participantes da Feira da Roça, é um fator que potencializa o alcance da experiência. O produtor Claudino Nicolau, de Vista Alegre (Queimados), que faz parte da diretoria de sua associação e também está presente na Feira da Roça de Queimados, disse: “Estou usando o que tenho aprendido no curso lá dentro do meu sítio, estou trabalhando direto sobre vários assuntos que foram ensinados na Escolinha. Eu tenho feito a divulgação (da Escolinha) entre as pessoas que eu conheço, e venho comentando sobre as coisas que venho aplicando, e muitos têm se interessado em participar da Escolinha no ano que vem”.

Uma das preocupações dos promotores era se a metodologia empregada, na forma de “aulas”, não estaria impedindo a comunicação entre os alunos, de forma a impossibilitar a troca de saberes entre eles. Durante as reuniões de avaliação, ficou claro que a troca está acontecendo, independentemente do formato da “aula”. Escambo de mudas, de sementes e de animais vêm sendo frequentes, e o uso de práticas por um agricultor vem animando os outros a também usarem a mesma prática.

A participação de pessoas de tantas comunidades rurais diferentes está provocando não só a troca de saberes agroecológicos, como também a troca de experiências sobre associativismo e participação em conselhos municipais. Os alunos estão se apropriando, além de uma visão agroecológica, de uma ideia geral de território. Aproveitam todos os momentos possíveis para esta troca: intervalos, hora de almoço, hora de perguntas. Visitas entre alunos, fora do horário ou atividades da Escolinha, já se notam. Alunos de um município começam a visitar reuniões de CMDRS de outro município, começando a observar diferenças de funcionamento.

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