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O engenheiro agrônomo e a agricultura no Estado do Rio de Janeiro

20/10/2020
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INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como principal objetivo sintetizar meus pensamentos pessoais acerca da real importância do engenheiro agrônomo dentro do contexto social de hoje e do futuro. Naturalmente, a linha de pensamento desenvolvida diz respeito aos aspectos relativos à sociedade fluminense, onde estamos inseridos e, em última análise, onde acredito que temos plenas condições de agir no sentido da busca do seu aprimoramento. Ressalto a importância de nossa nobre profissão como agente de mudanças voltadas para o oferecimento de soluções efetivas e duradouras para os problemas crônicos há décadas enfrentados pelos agricultores do Estado do Rio de Janeiro, de forma mais específica.

A AGRICULTURA FLUMINENSE 
O contexto histórico da agricultura fluminense engloba aspectos peculiares e específicos, que findaram por determinar a atual situação vivenciada pelas pessoas incluídas nesse setor. O Estado do Rio de Janeiro constitui cerca de 0,5% de todo o território nacional (4.391.000 Ha) e, desse total, a agricultura fluminense ocupa cerca de 9,5% (413.500 Ha), distribuída nos 93 municípios. O clima varia de Tropical ao Tropical de Altitude, com grandes áreas sob vegetação típica de Restinga nas áreas litorâneas. Ou seja, não existem no estado fatores climáticos extremos, os quais poderiam de alguma forma inviabilizar atividades produtivas. Dessa maneira, fica evidente que os baixíssimos índices de produtividade da agricultura fluminense são consequência direta da desorientação de nossos agricultores quanto às melhores opções produtivas para cada caso. A agroindústria fluminense, quando presente, mostra-se totalmente desarticulada com o setor produtivo, salvo em determinadas localidades onde foram implantados polos setoriais, porém sem importância significativa para o segmento como um todo e voltada apenas para pequenos negócios, geralmente subsidiados pelo Poder Público. Por esses e outros motivos, pode-se dizer que, atualmente, a agricultura fluminense não consegue abastecer mais do que 50% da demanda estadual de produtos agrícolas, o que configura uma crescente necessidade de importação de alimentos de outros estados. Cumpre ressaltar que, em termos percentuais, a agricultura fluminense apresenta um dos menores índices de todo o Brasil, fato que se constitui como a maior evidência do abandono a que o setor foi relegado pelas autoridades públicas estaduais durante as últimas décadas.

PERFIL POPULACIONAL DO ESTADO 
A população do Estado do Rio de Janeiro é hoje eminentemente urbana, o que vem a ser consequência natural da desagregação do setor produtivo agrícola, bem como da precária infraestrutura agroindustrial do Estado. Nesse sentido, a tendência é de agravamento dessa condição, devido à inexistência de programas sólidos e realistas para o setor, que possam de alguma forma oferecer alternativas positivas para inverter as tendências desse movimento, que vem ocorrendo há décadas no Estado do Rio de Janeiro. Naturalmente, isso não significa falta de aptidão agrícola em nosso Estado, mas sim a quase total ausência de prioridades para o setor, assim como a inexistência de políticas públicas eficazes, a ponto de mudar a tendência de declínio da atividade agrícola estadual.

MODELO VIGENTE PARA A AGRICULTURA
Assim, é evidente que o modelo de gestão para o setor agrícola adotado no Estado do Rio de Janeiro é totalmente inadequado e ultrapassado. Nota-se que esse modelo de gestão tem atendido a interesses que não aqueles que poderiam, de forma concreta, propiciar chances de crescimento financeiro às pessoas que eventualmente já estiveram ou que ainda estejam inseridas no segmento agrícola. Os agricultores são tratados de forma paternalista e até infantil, na medida em que as práticas hoje adotadas pelos órgãos públicos responsáveis por esse trabalho se utilizam de técnicas totalmente inadequadas e praticamente sem conteúdo profissional criativo. Da mesma forma, outros interesse menores, invariavelmente, norteiam os sucessivos e frustrados programas (geralmente com finalidades eleitorais) que, como poderia ser esperado, não surtem efeito prático algum e, ao contrário, causam prejuízos cada vez maiores na medida em que fazem com que um tempo precioso seja desperdiçado pelos agricultores, que se deixam iludir com as opções a eles oferecidas nessas ocasiões. É notável a inexistência de articulação entre os diversos organismos que poderiam reverter a tendência de declínio da agricultura fluminense, ao mesmo tempo em que não se pode notar movimento algum no sentido contrário, principalmente pelos setores que deveriam atuar no soerguimento da combalida agricultura fluminense.

O ENGENHEIRO AGRÔNOMO HOJE E NO FUTURO 
Nos dias de hoje, e no futuro, cada profissional deve ter plena sintonia com o contexto social onde esteja inserido e, ao mesmo tempo, ser dotado de visão crítica e analítica dos diversos segmentos sociais envolvidos em sua área de atuação, com vistas a ter subsídio suficiente para

poder agir de forma a aprimorar os resultados de seu trabalho. Da mesma forma, o Estado como um todo deve possuir infraestrutura e vontade política suficientes, com vistas a motivar adequadamente os profissionais de cada setor social, para que o sistema possa apresentar resultados positivos de todo e qualquer trabalho que venha a ser desenvolvido numa sociedade. Nesse sentido, e pelas características inerentes à profissão de engenheiro agrônomo, é fundamental que existam políticas públicas bem estruturadas e adequadamente fundamentadas para o setor.

A MÁQUINA PÚBLICA E A CRIATIVIDADE INDIVIDUAL
Com a mais absoluta certeza, as características de funcionamento da “máquina pública” constituem hoje uma das principais razões para a apatia e as raríssimas manifestações de criatividade individual dos engenheiros agrônomos na nossa sociedade. Isto porque, no modelo vigente e adotado para esse segmento do setor agrícola do Estado do Rio de Janeiro, obedecem-se a preceitos superados e inadequados para o mundo atual e do futuro. Nesse modelo, a cadeia de conhecimentos é totalmente fragmentada e praticamente não existe conexão entre a geração e o acúmulo do “saber e conhecimento específico” e os agentes de transmissão de todo o material existente e acumulado através do tempo que, em última análise, constitui a razão de ser de todo o sistema. Assim, os reais beneficiários de toda a máquina pública acabam quase que totalmente desinformados e sem perspectivas de progresso em suas atividades.

MULTIDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE
A profissão de engenheiro agrônomo é, por característica própria e inerente, uma carreira multidisciplinar. Em nossa formação profissional, adquirimos visão ampla e crítica de grande parte dos aspectos envolvidos em nossa vasta área de atuação e, ao mesmo tempo, sabemos da necessidade imperiosa da interação saudável entre outras áreas de conhecimento setorial, para que possamos oferecer aos agricultores as melhores alternativas no desenvolvimento de suas atividades. Dessa forma, é essencial considerarmos aspectos relacionados com a transdisciplinaridade, para que todas as atitudes que possamos sugerir a esses agricultores sejam tomadas de forma ampla, de modo a propiciar os resultados mais adequados e oportunos para cada situação. E, no atual contexto e dentro do modelo há décadas vigente para o setor, é exatamente esse o ponto crucial que bloqueia totalmente a forma de atuação dos engenheiros agrônomos, fator primordialmente responsável pelo declínio da agricultura fluminense como um todo nos últimos 50 anos.

FERRAMENTAS ATUAIS
Com o avanço da informática e a disponibilização do “conhecimento” em seus diversos níveis, é evidente a disponibilização de informações necessárias e suficientes para a implementação do setor agrícola em qualquer região do planeta. Como nunca, a tecnologia e a evolução social estão diretamente relacionadas. A difusão do “saber” e a “evolução social positiva”, da mesma forma, fazem parte do processo de desenvolvimento como um todo. Dentre as atuais ferramentas disponíveis para a adequada condução de procedimentos relacionados com a orientação dos agricultores, podemos citar a “Geomática”. No entanto, ao mesmo tempo em esse tipo de material atualmente disponível possui imenso poder de transformação, sempre irá existir a necessidade imperiosa da presença do profissional devidamente qualificado para cada tipo de atividade. E, nesse contexto, a figura do engenheiro agrônomo é única e essencial para a obtenção de resultados positivos no setor agrícola. Daí, a necessidade de interação entre os diversos níveis de interdisciplinaridades envolvidos na matéria, para que se possa conduzir da forma mais adequada a política pública para esse segmento.

MUDANÇA DE RUMOS E PERSPECTIVAS FUTURAS
No caso específico da agricultura fluminense, poderemos observar alterações significativas quando a “tecnocracia” deixar de estar diretamente relacionada com a “miséria coletiva”. Ou seja, enquanto o “saber” ficar limitado a determinados grupos privilegiados e, ao mesmo tempo, a imensa maioria dos verdadeiros beneficiários do conhecimento continuarem à margem do sistema, essa tendência irá persistir, inclusive com possibilidades concretas de aumento da tensão social latente em nosso Estado. E, para que essa mudança possa acontecer, é necessário que o poder público tenha a necessária sensibilidade para permitir a plena manifestação de toda a criatividade dos profissionais de nossa classe, devidamente apoiados pelas autoridades constituídas. Nesse sentido, torna-se imprescindível a busca de uma forma concreta de os profissionais de Agronomia serem dotados de maior poder de análise e decisão, dentro do contexto agrícola do Estado do Rio de Janeiro. A partir desse momento, os agricultores fluminenses poderão, enfim, vislumbrar dias melhores, com consequências positivas e diretas para toda a sociedade fluminense. Isso é o que eu e muitos colegas esperamos há décadas, com a mais absoluta certeza.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Ao finalizar a explanação de meus atuais pensamentos acerca da importância da classe agronômica no contexto social de nosso Estado, ressalto que o engenheiro agrônomo do futuro já existe em todos os profissionais conscientes da profunda capacidade de mudança que todos temos, em virtude de nossa capacidade individual de análise crítica no enfoque de nossa profissão, bem como do conhecimento técnico que adquirimos no decorrer de nossa formação profissional. E, se conseguirmos fazer com que haja o devido respeito por nossas reais atribuições, poderemos enfim propiciar as mudanças na estrutura dos arranjos sociais vigentes, com amplas possibilidades de resultados positivos concretos, que serão traduzidos pela harmonização das relações entre os agentes produtores de alimentos e a sociedade propriamente dita. Assim sendo, nesse contexto. todos iremos sair vencedores, ao contrário do atual cenário, onde tanto os produtores continuam sentindo-se desamparados como os profissionais continuam praticamente blindados em aspectos relacionados à difusão de conhecimentos junto ao setor produtivo como um todo.

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