
A exploração de petróleo na Bacia Potiguar: aspectos históricos
A Sociedade Brasileira de Geologia e o Crea-RJ, unidos a várias outras instituições nacionais, homenageiam os 70 anos da Petrobras, ...
A Sociedade Brasileira de Geologia, juntando-se a várias outras instituições nacionais, homenageia os 70 anos da Petrobras, empresa símbolo do desenvolvimento nacional e que patrocinou grandes avanços para a ciência e todo o setor industrial brasileiro. Iniciamos com o histórico sobre a exploração de petróleo e gás na Bacia Potiguar, localizada nos estados do Rio Grande do Norte e Ceará, e mensalmente daremos sequência sobre a exploração em outras áreas onde a empresa atuou ao longo das últimas décadas de sucesso e empreendedorismo.
A grande província sedimentar-magmática paleozoica-mesozoica do centro-sul brasileiro tem representado um enorme desafio à exploração convencional de óleo e gás. Concorrem para isso as suas dimensões – mais de 1 milhão de quilômetros quadrados de área; a prospecção petrolífera nesta província demanda grande volume de recursos financeiros para a aquisição de dados geofísicos com densidade mínima que viabilize a localização de alvos passíveis de perfuração. E as características de sua geologia, com a presença de uma intrincada rede de diques e sills além das colossais magmáticas Serra Geral à superfície, o que tem constituído sério impeditivo à qualidade dos dados sísmicos – ferramenta fundamental para o avançar do processo exploratório.
Atividades pioneiras de reconhecimento geológico da Bacia do Paraná remontam ao último quarto do século XIX e ao primeiro do século XX. Em 1897 foi perfurado o primeiro poço de investigação petrolífera no Brasil, em Bofete-SP, motivado pela existência de afloramentos de arenitos asfálticos nas proximidades. Destaque deste período inicial de estudos foram os trabalhos da Comissão do Carvão liderada por Israel C. White, cujo relatório publicado em 1908 apresenta a organização estratigráfica das seções permo-carbonífera e mesozoica e tece considerações sobre o potencial gerador de hidrocarbonetos da Formação Irati. Seguiram trabalhos de mapeamento e perfuração de poços estratigráficos, atividades estas sistematizadas a partir da criação do Conselho Nacional do Petróleo em 1938.
Com o início das atividades da Petrobras, em 1953, a Bacia do Paraná passa a ser trabalhada por um grupo de exploracionistas residentes em Ponta Grossa-PR. A faixa de afloramentos no entorno da cobertura magmática foi inteiramente mapeada, as particularidades estratigráficas dos diversos setores da bacia foram percebidas via correlações de subsuperfície e trabalhos de campo, com destaque para a micropaleontologia como ferramenta fundamental no suporte aos estudos integrados. Em torno de 70 poços foram perfurados, em sua maioria
estratigráficos e abundantemente amostrados via testemunhagem, constituindo-se tal conjunto de dados o acervo básico ao entendimento da geologia da bacia. Resultaram dos poços algumas vazões não-comerciais de óleo e gás, principalmente nas áreas de Três Pinheiros, Herval Velho, Matos Costa e Taquara Verde, todas no Estado de Santa Catarina e relacionadas ao gerador Irati. Esta fase de investigação perdurou até 1975, quando o Distrito de Exploração do Sul foi fechado.
O período 1979-1985 marcou a fase de atividades do Consórcio CESP-IPT (Paulipetro) na Bacia do Paraná. Ressalte-se a melhoria na qualidade dos dados sísmicos obtida nesta etapa de trabalhos, dados estes que até então não serviam como ferramenta decisória na proposição de locações exploratórias e que, daí em diante, entraram na categoria informal de “minimamente interpretáveis”. Com intensa campanha de aquisição sísmica e de perfuração de poços, além de detalhamento estratigráfico em seções selecionadas e investigações geoquímicas, dentre outros trabalhos, a breve existência do Consórcio foi de grande valia ao entendimento da bacia. Regiões mais profundas foram então amostradas, colocando em evidência o potencial gerador do pacote devoniano da Formação Ponta Grossa para hidrocarbonetos gasosos. Um importante conjunto de dados geológico-geofísicos foi gerado, e dos cerca de 30 poços perfurados diversos apresentaram vazões importantes de gás – porém não-comerciais, com destaque para Cuiabá Paulista-SP e Chapéu do Sol-PR. A British Petroleum, nesta mesma época, fez uma breve incursão na bacia, levantando por volta de 1.500 km de sísmica e perfurando um poço em Guarapuava-PR, que resultou seco.
Em 1985 a Petrobras descobriu óleo leve na Bacia do Solimões, em Rio Urucu-AM, o que provocou uma mudança de perspectivas para a exploração nas bacias paleozoicas brasileiras. Com esta motivação, foi estabelecido o Nexpar – Núcleo de Exploração da Bacia do Paraná, com sede em Curitiba. O Nexpar dispunha de uma estrutura organizacional enxuta, com técnicos distribuídos nos setores de interpretação exploratória, de aquisição e processamento de dados geofísicos e de acompanhamento e avaliação de poços. A primeira tarefa foi resgatar e organizar o acervo de dados técnicos da bacia, incluindo amostras litológicas, registros magnéticos de dados geofísicos e toda a documentação escrita (relatórios, pastas de poço, artigos científicos) até então produzida.
A Interpretação Exploratória do Nexpar procurou ultrapassar os limites do conhecimento prévio da Bacia do Paraná por meio da atuação em múltiplas escalas. Na escala continental, foi estabelecido um grupo de correlação através de uma parceria com instituições do Uruguai (Ancap), Paraguai (Petropar e Wiens Consultores), Bolívia (YPFB), Chile (Sipetrol) e Argentina (YPF e Univ. de Buenos Aires), cujos trabalhos ampliaram a visão paleogeográfica e estrutural da bacia e de áreas correlatas em países vizinhos, além de oferecer a possiblidade de se ter acesso a informações exploratórias relevantes acerca dos plays petrolíferos de sucesso em bacias situadas além das fronteiras do Brasil.
Uma segunda abordagem utilizada foi a da sísmica regional, associada à gravimetria e a aerolevantamentos de magnetometria. Tendo por objetivo conhecer os grandes traços tectônicos da sinéclise, a programação contemplava a aquisição de linhas sísmicas de grande comprimento, com o objetivo de mapear-se o arcabouço de falhas e compreender-se os estilos estruturais presentes na bacia. Estes dados em escala regional eram posteriormente complementados por outros, de semi-detalhe e de detalhe. Avançava-se, desta forma, fechando a malha sísmica sobre feições de interesse identificadas nos regionais, na clássica abordagem from play to prospect. Adicionalmente, dados de campanhas anteriores (principalmente da fase Paulipetro) eram reprocessados e incluídos no conjunto disponibilizado aos intérpretes.
O primeiro poço desta nova investida, Rio Cantu-PR, revelou abundantes indícios de gás em um amplo intervalo vertical da seção atravessada; perfurado junto a um dos grandes lineamentos NW-SE, do mesozoico, a estrutura-alvo provavelmente teve a integridade de sua trapa comprometida pela tectônica tardia. Em seguida foi perfurado Alto Piquiri-PR, que apresentou vestígios de óleo morto na Formação Rio Bonito e foi finalizado a 5.911m, sem alcançar o embasamento cristalino. Garça Branca-PR foi o terceiro poço, e neste queimou- se algum gás em teste de formação nos arenitos do Grupo Itararé.
Com o evoluir dos estudos de integração de dados, consolidou-se no grupo de interpretação a premissa de que o esforço exploratório deveria ser concentrado em duas áreas: os projetos Planalto Catarinense e Paraná Central. Estas duas áreas, cada uma com cerca de 30 mil km2, emergiram de um estudo do tipo play maps, em que se buscou identificar aquelas regiões onde os fatores controladores da presença de jazidas de hidrocarbonetos (isópacas de reservatórios com selo e de geradores maturos) coincidam espacialmente e com suas espessuras máximas. Corroboravam para o destaque dos blocos Planalto Catarinense e Paraná Central no contexto da bacia o histórico de indícios de hidrocarbonetos constatados até então, com evidências do sistema petrolífero Irati-Rio Bonito no primeiro e do sistema petrolífero Ponta Grossa-Itararé/Rio Bonito no Paraná Central.
Definidas estas áreas prioritárias, suspenderam-se em 1993 os trabalhos de perfuração na bacia e as equipes sísmicas foram direcionadas a estes dois blocos. Levantaram-se linhas de reflexão planejadas para interceptar os lineamentos aeromagnetométricos e gravimétricos SW-NE, representativos das grandes estruturas do embasamento cristalino e considerados as feições estruturais de interesse para prospecção na bacia, em função de suas conhecidas e recorrentes movimentações durante o Paleozoico. Um grande esforço foi empreendido na aquisição sísmica naquele momento visando a melhoria da qualidade, com experimentais e aquisição de refração rasa para auxiliar nas correções estáticas, um persistente problema para a sísmica na bacia.
Dois anos mais tarde, a sonda retornou à Bacia do Paraná. Perfurado o poço Fazenda Roseira-SC, os resultados de alguma forma repetiram o que já houvera sido observado na região do Planalto Catarinense: abundantes indícios de óleo na Formação Rio Bonito mas o hidrocarboneto está em reservatórios arenosos depletivos. A seguir, a perfuração de Barra Bonita no Município de Pitanga-PR em 1996, no Bloco Paraná Central, revelaria a primeira jazida de gás na bacia. O intervalo portador de hidrocarboneto faz parte do Grupo Itararé e o gás está armazenado sob um sill de diabásio que se acomodou na estrutura e propiciou um selo eficaz (Fig. 1). O reservatório apresenta porosidade intergranular e por rede de fraturas. O 3-BB-2D-PR testou a continuidade da jazida, que foi comprovada, tendo os dois poços sido completados para produção e abandonados temporariamente. Apesar do volume modesto, a importância de Barra Bonita foi revelar a existência de acumulações de hidrocarboneto na Bacia do Paraná, objetivo perseguido há mais de um século.
Na sequência dos trabalhos de perfuração, já em 1998, o poço Mato Rico-PR constatou uma significativa coluna de gás na Formação Rio Bonito, porém os testes de vazão revelaram a perda rápida de pressão destes reservatórios. Considerando a grande continuidade em área que caracteriza as camadas arenosas desta formação, existe a possibilidade de que o volume limitado de gás ali presente seja devido a uma compartimentação lateral promovida por diques mesozoicos. Esta foi a última atividade exploratória operacional da Petrobras na Bacia do Paraná.
A partir de 1997, com a Nova Lei do Petróleo e a saída da Petrobras da condição de executora exclusiva do monopólio estatal, a empresa viu-se sob novas circunstâncias para sua atuação no País. Escolhas tiveram que ser feitas, e naquele momento certamente o volume reduzido de gás em Barra Bonita não representava um ativo de alta prioridade, de tal sorte que os interesses exploratórios da Petrobras na bacia foram negociados com outras operadoras.
A exploração na Bacia do Paraná caracterizou-se até o presente por ciclos em que períodos de atividade foram intercalados a outros, de estagnação. Isto é natural no processo exploratório, especialmente em áreas geologicamente complexas e de resposta lenta como esta. Pelo conjunto de fatos e dados compilados nesta longa história de trabalhos, a bacia deixa transparecer um inegável potencial para óleo e gás. Hoje, 25 anos após Barra Bonita, a Bacia do Paraná aguarda um novo recomeço.
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