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O planeta Terra possui 4,6 bilhões de anos. O registro dos muitos eventos, tais como mudanças ambientais, grandes vulcanismos, formação e fragmentação de grandes continentes, colisões de meteoritos, os passos da evolução da vida, entre outros, são registrados nas rochas. Tentar reconstruir a história do planeta é como brincar de detetive. Em determinados locais existem importantes pistas que ajudam a desvendar o que aconteceu há muitos milhões ou até bilhões de anos. Neste texto, o leitor irá encontrar algumas informações sobre a história do planeta que são contadas pelas rochas existentes no território de Chapada dos Guimarães, no estado de Mato Grosso. Se você é uma daquelas pessoas que adora belas paisagens, cachoeiras, cavernas, uma culinária rica e muitas histórias envolvidas, com certeza irá se interessar por visitar esse lugar tão especial que fica localizado próximo ao centro geodésico da América do Sul.
Entre os vários tipos de componentes da natureza, a biodiversidade com certeza é o conceito mais conhecido. Todas as formas de vida que existem no planeta e como são as relações entre elas, e como nós nos relacionamos com elas, são discutidas neste termo. É difícil encontrar uma criança ou um adulto que não tenha ao menos uma noção básica sobre o que é a biodiversidade e por que ela é importante.
Da mesma forma que existem muitas formas de vida, também existe no planeta uma ampla variedade de minerais, rochas, fósseis, estruturas geológicas, formas de relevo, tipos de solo, tipos de processos de dinâmica superficial entre outros. O conceito de geodiversidade surge com a proposta de reunir esses elementos. Assim como a biodiversidade está presente na nossa vida a todo tempo, a geodiversidade também está. Os equipamentos eletrônicos, casas, carros e todos os itens que são usados no dia a dia são produzidos utilizando recursos minerais, ou seja, usando as rochas.
Em alguns locais do mundo existem uma geologia e um geomorfologia muito especiais, onde, além do uso convencional dos recursos naturais relacionados à geodiversidade, também existem elementos geológicos raros, que ajudam a contar importantes eventos e processos do planeta. Para conseguir desenvolver uma gestão territorial adequada nestas regiões, surge, no início do século XXI, o conceito de geoparques.
Os geoparques não são unidades de conservação, são, na verdade, modelos de gestão territorial. Conforme a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), os “Geoparques Mundiais são áreas geográficas unificadas, onde sítios e paisagens de relevância geológica internacional são administrados com base em um conceito holístico de proteção, educação e desenvolvimento sustentável. Sua abordagem ascendente que combina a conservação com desenvolvimento sustentável”. A base de um geoparque está na promoção da geodiversidade e no desenvolvimento de ações de educação, geoturismo e geoconservação.
Para se tornar um geoparque mundial, é preciso ter o reconhecimento da UNESCO. Hoje, no Brasil, existe um geoparque reconhecido, o Geoparque Araripe (CE), e dois outros geoparques estão em estado avançado de candidatura, sendo eles o Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul (RS e SC) e Seridó (RN). Muitos outros projetos estão em desenvolvimento no país, e em breve podem se concretizar em novos geoparques reconhecidos pela UNESCO, entre eles,o projeto Geoparque Chapada dos Guimarães.
Situada a cerca de 65 km de Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso, no território do município de Chapada dos Guimarães, são encontradas rochas que contam um pouco sobre como era o planeta durante quase 1 bilhão de anos. No local, já existiram mares, glaciações, formação de grandes cordilheiras, desertos, vulcões e antigos rios. Em algumas destas rochas são encontrados fósseis de invertebrados marinhos da era paleozóica, e de dinossauros, tartarugas e crocodilos da era mesozóica.
As paisagens da região são compostas por belos mirantes, cachoeiras e cavernas. Esse conjunto de elementos são a base para o desenvolvimento do projeto geoparque de Chapada dos Guimarães, que surge com a proposta de desenvolver ações de geoturismo, educação e geoconservação, visando uma gestão territorial adequada considerando os diversos aspectos relacionados à geodiversidade. A seguir, vamos fazer uma breve viagem pelo tempo e pela história do planeta, em alguns dos geossítios que existem no projeto geoparque de Chapada dos Guimarães.
Geossítios em Chapada dos Guimarães
A Cidade de Pedra é um geossítio situado no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães. Deste belíssimo mirante, além da exuberância do cerrado, é possível observar no horizonte rochas com histórias muito distintas (Figura 1). A unidade geológica mais antiga é o Grupo Cuiabá, que teve a deposição das rochas em um ambiente marinho, em uma época em que o território que hoje é a América do Sul, era fragmentado em vários continentes menores. Após um longo período de deposição de sedimentos no fundo deste oceano, devido aos movimentos convergentes das placas tectônicas, dois continentes se colidiram formando uma grande cordilheira parecida com a que hoje é o Himalaia. Todo esse processo ocorreu entre cerca de 1 bilhão de anos e 500 milhões de anos atrás.
As morrarias do grupo Cuiabá, que são avistadas desde o mirante, são compostas por rochas metamórficas que compunham essa antiga cadeia de montanhas. Sobrepostas a estas rochas estão as formações Furnas e Ponta Grossa, que são encontradas em locais como Morro do São Jerônimo, feição que também compõe o campo de visão do mirante. As rochas destas duas unidades foram formadas em um fundo de mar que recobriu a região durante o período devoniano (entre 416 e 359 milhões). Nestas rochas são encontrados fósseis de invertebrados marinhos.
A última unidade geológica que compõe a paisagem é a Formação Botucatu, que é a rocha que está aos pés do observador e que compõe os paredões do mirante. Esta unidade geológica foi depositada em um ambiente desértico. As rochas existentes no local representam um vasto campo de dunas sobrepostas, que hoje possuem cerca de 350 metros de registro preservado. Esta unidade se formou durante o final do período jurássico e o início do período cretáceo, algo em torno de 150 a 140 milhões de anos.
Devido aos grãos do arenito da formação Botucatu terem tamanhos muito parecidos (em geral arenito médio), a rocha possui uma excelente porosidade e por isso se comporta como uma verdadeira esponja, que absorve as águas das chuvas. Esta água armazenada nos aquíferos é liberada gradativamente para os muitos rios que existem na região. Além de todos estes elementos, o modelamento do relevo local, devido à erosão diferencial, criou uma verdadeira cidade de pedras composta de feições ruiniformes que dão nome ao local.
Parte desta história geológica pode ser vista de perto pelo visitante em outros geossítios, como na Cachoeira do Véu e na Trilha dos Fósseis e Circuito das Cachoeiras, ambos ficam localizados no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães. No percurso entre a entrada do parque nacional e as cachoeiras, o visitante atento pode avistar nas trilhas fósseis de invertebrados marinhos (Figura 2), diferentes tipos de rochas sedimentares e metamórficas, estruturas geológicas como a discordância, que é linha que marca o contrato entre as rochas do grupo Cuiabá e da Formação Furnas. Neste trajeto, a paisagem é composta por cânions como o Rio Coxipozinho, belas paisagens e diversas cachoeiras (Figura 3).
As cavernas existentes no território de Chapada dos Guimarães também são impressionantes. São cavernas desenvolvidas em rochas siliciclásticas (arenitos e conglomerados) do Grupo Rio Ivaí, unidade geológica que se depositou na região durante o Período Siluriano. O geossítio é composto pelas cavernas Aroe Jari, Kiogo Brado (Figura 4), Lagoa Azul (Figura 5) e Pobo Jari. A primeira delas é uma das maiores cavernas em rochas siliciclásticas existentes no Brasil. Neste conjunto de cavidades é possível observar a influência das fraturas geológicas para o desenvolvimento das cavernas, assim como o processo de piping desenvolvendo erosão interna nas rochas. Nas trilhas de acesso à caverna também é possível avistar as rochas do Grupo Cuiabá e os paredões compostos pelas formações Furnas e Ponta Grossa.
Os geossítios descritos nos parágrafos anteriores fazem parte de um inventário de 28 geossítios que foram descritos pelo projeto. Em outros locais no território existem rochas da Bacia Cambambe, como a formação Paredão Grande, que é composta por basaltos de 84 milhões de anos, rochas sedimentares do grupo Ribeirão Boiadeiro e da Formação Cambambe. Em meio a esses sedimentos foram encontrados fósseis de grandes dinossauros como Saurópodes e Terópodes, como o Pycnonemosaurus Nevesi que foi descrito com base em fósseis encontrados na região. Já a Formação Cachoeirinha é a unidade geológica mais recente. Nestas rochas durante séculos ocorreu a mineração de diamantes.
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