
Panorama dos aspectos técnicos de moradias autoconstruídas: uma revisão narrativa
A autoconstrução é o processo no qual os próprios moradores assumem diretamente a gestão da produção de suas moradias, adquirindo ...
Passados 10 anos da publicação do artigo “Levitação Magnética: um assunto estratégico para o desenvolvimento do Brasil”, na Crea-RJ em Revista (set/out 2010, páginas 12-17), muita coisa importante aconteceu relacionada ao projeto MagLev-Cobra, apresentado naquela oportunidade. Vale a pena olhar brevemente para o passado, objetivando tirar daí orientação para o futuro. Seria como um rápido passar de olhos pelo retrovisor de um veículo, para melhorar a condução. Na verdade, quem não estuda o passado, e dele tira ensinamentos, corre o risco de repetir erros. Afinal, a inteligência se mede pela capacidade de aprender com os próprios erros. Muito inteligente, ainda, é aquele que aprende com os erros dos outros; demonstra deficiência, quem não aprende nem com os próprios. No texto “MagLev-Cobra: breve retrospectiva” – que escrevi em outubro de 2019, pela comemoração do aniversário de cinco anos de inauguração do protótipo experimental, e atualizei em outubro de 2020, em função da COVID-19 – apresento alguns detalhes dessa trajetória.
Aqui, destacarei apenas alguns fatos que balizaram o andar do projeto, especialmente a partir de 2015, e, dos quais, tirei algumas conclusões que compartilho para a reflexão e crítica. Na análise que se segue, terei como referência os sábios conselhos deixados por Bertrand Russell para a avaliação da realidade.
De 2000 a 2015
Recebi do professor Roberto Nicolsky, no ano 2000, o recém-nascido MagLev-Cobra, ainda não batizado com esse nome. Foi por ocasião da “16th International Conference on Magnetically Levitated Vehicles and Linear Drives”, que meu visionário colega trouxe pela primeira vez o assunto para o Hemisfério Sul. Ele, como chair, e eu, como co-chair, inserimos o Brasil no seleto grupo que discute este disruptivo método de transporte desde 1977, quando foi realizada a primeira conferência da série, mantida até os dias de hoje. Tive a felicidade de cuidar dessa criança ao longo dos últimos 20 anos. Agora, o MagLev-Cobra, já um jovem bem formado, tem que sair de casa, da UFRJ, para a vida, como os pais desejam dos seus filhos maduros.
Muito marcante foi a aprovação, em 2012, do projeto FUNTEC/BNDES. Na mencionada publicação da Revista do CREA de 2010, vivíamos a expectativa da resposta. Os recursos, da ordem de R$ 6,6 Milhões, somaram-se à R$ 4,7 Milhões da FAPERJ, R$ 800 mil da SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos) e ao apoio da iniciativa privada (OAS, Vallourec, White Martins, Akzo Nobel, WEG) para inaugurarmos a linha experimental de 200 metros de extensão no Campus da UFRJ. A data alvissareira foi 01/10/2014, último dia da “22th International Conference on Magnetically Levitated Vehicles and Linear Drives”, novamente realizada no Rio de Janeiro. Desta feita, fui o chair da Conferência, acompanhado pelo prof. Roberto Nicolsky, como co-chair.
O crescimento do projeto de 2000 até 2014 foi vertiginoso, os astros pareciam conspirar a favor. Até as pedras que surgiram no caminho acabaram sendo usadas na construção. Quatorze anos pode parecer muito tempo, mas devemos levar em conta que o projeto Transrapid alemão levou mais de 30 anos para sair da concepção até a implantação em Shanghai. Intervalos de tempo equivalentes se aplicam aos projetos sul coreano, japonês e chinês de trens de levitação magnética. Portanto, a velocidade de crescimento do MagLev-Cobra era excelente.
Abaixo, imagens da evolução do MagLev-Cobra enquadrada na escala TRL (Technology Readiness Level), proposta pela NASA [1], também norma brasileira desde 2015 [2].
Em 2015, tivemos aprovada a proposta submetida ao Edital FAPERJ – Pensa Rio, com um apoio de R$1,5 milhão, distribuído ao longo de um período de três anos, tempo necessário para encontrar um parceiro industrial e galgar os estágios TRL8 e TRL9. Iniciamos a operação semanal com demonstrações abertas ao público todas as terças-feiras. Mais de 20 mil viagens ficaram registradas no livro de visitantes até o início da COVID-19. Recebemos dois ministros da Ciência e Tecnologia, presidentes da FINEP, diretores do BNDES, empresários, políticos, professores e autoridades nacionais e estrangeiras, alunos, estudantes do segundo e primeiro graus, famílias, funcionários. Fomos objeto de inúmeras reportagens para televisão e jornal.
Curiosamente, 2014, ano de inauguração do protótipo MagLev-Cobra, coincide com o início da operação Lava-Jato. A partir de então, os investimentos brasileiros em Ciência e Tecnologia começaram a despencar. Isso revela nossa incapacidade de extirpar o câncer da corrupção sem matar o paciente. A imagem que faço é de um “sniper” chamado para matar um sequestrador. O atirador, para atingir seu alvo, mata todos os sequestrados e detona o prédio onde estavam confinados. Nesse mesmo período, em setembro de 2015, a Volkswagen foi enquadrada pela “Environmental Protection Agency” dos EUA por violar o “Clean Air Act” com os veículos que vendia. Os dirigentes da empresa foram punidos, mas ela continuou intacta. Aqui não, até a Petrobras está ameaçada de extinção.
FUNTEC 2018: um marco histórico
No início do segundo semestre de 2018, precisamente no dia 18/6/2018, das 9:30h às 18h, o BNDES lançou, no Centro do Rio, um novo FUNTEC, nomeado de “Pilotos de IoT”. O edital contava com a participação dos Ministérios da Saúde; da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; das Cidades; da Ciência, Tecnologia e Inovação, e do próprio BNDES. Grande decepção! A dotação total para o FUNTEC foi de R$ 15 milhões, divididos em três grupos de R$ 5 milhões. Um para a área da Saúde, outro para a área Rural e o terceiro para Cidades. Cada grupo contemplaria de 1 a 5 projetos, sendo que o BNDES entraria com 50% e as empresas com 50%. Nos FUNTECs anteriores, a participação das empresas era de 10%. O edital, evidentemente, não atendia às necessidades do MagLev-Cobra. Direcionava-se nitidamente para software e aplicativos de celular, tanto pelo nome quanto pelos valores.
O P&D da ANEEL de 2019
Em 2019, a ANEEL abriu um edital para Veículos Elétricos e submetemos uma proposta. Não poderíamos perder a oportunidade, ainda mais em um tempo de vacas magras. Apresentamos o projeto em São Paulo no dia 24 de junho de 2019 e atraímos participantes do setor elétrico para chegar ao valor almejado de R$ 10 Milhões. Em Brasília, no dia 31 de julho, tivemos 20 minutos para convencer os avaliadores da ANEEL. A resposta final estava prometida para o dia 11 de setembro. Grande expectativa, esperança maior ainda, mas a data 11/09 soava como um mau agouro. O resultado finalmente saiu, o projeto foi aprovado. O contrato, porém, não foi assinado por orientação da matriz da EDF, a empresa parceira majoritária do setor elétrico, contrariando o que havia sido longamente discutido com o representante no Brasil. A ANEEL, por condições do edital, não permitiu a substituição por outra empresa que se mostrasse interessada. A orientação que recebemos foi submeter novamente a proposta, agora fora do edital. Nisso estamos trabalhando, já tivemos reuniões presenciais com duas concessionárias, mas, em tempos de pandemia, tudo ficou mais difícil.
Exemplos históricos
Esse processo de flagelação da industrialização brasileira é antigo. Já recebemos ordens expressas de Portugal para fechar nossas fábricas [3]. Essa agora veio da França. Seguem dois exemplos emblemáticos, escolhidos na área de transporte, para mantermos o foco.
Em 1961, o Grupo Executivo da Indústria Automotiva – governo JK – concluiu que o modelo ROMI-Isetta não era um automóvel pois tinha apenas uma porta, em posição frontal, e não dispunha de compartimento para bagagem. Com isso, não merecia o subsídio que estava sendo dado para implantar a indústria automobilística no Brasil e fracassamos com a tentativa de um carrinho nacional (Fig. 1), liderado pela Romi, indústria brasileira [5].
Passados 30 anos, foi a morte da primeira indústria totalmente nacional de veículos. O BR-800 da Gurgel encontrara um espaço por pagar menos IPI pela baixa cilindrada. Em 1990, o governo Collor, pressionado pelas montadoras de veículos instaladas no Brasil, aprovou uma alíquota de IPI mais baixa também para carros com motor de até 1 litro [6]. A Fiat, então, lançou o Mille por um valor parecido ao carro da Gurgel, que faliu (Fig. 2). Então, depois de mais 30 anos, foi a nossa vez…
Fig.1
Fig. 2
Assim, caminhando aos trancos e barrancos, desde 2015, chegamos a 2020, ano da COVID-19. O MagLev-Cobra, podemos assim dizer, foi infectado. Resistimos até agosto, aproveitando o tempo de trabalho remoto para depositar 4 novas patentes (já tínhamos 3 aprovadas) e documentar os procedimentos operacionais. Depois, fechamos as portas. No auge da crise, em setembro de 2020, convidado pelos alunos da UFRJ e da UFF (sempre os bons alunos nos ajudando!) apresentei uma palestra virtual e recebi, em seguida, apoio vindo das mais diferentes direções que deram ânimo para uma virada, uma quase ressurreição.
Uma longa história e suas principais lições
O MagLev-Cobra precisa ser industrializado, não adianta manter a operação de um protótipo com características artesanais, como fizemos de 2015 até 2020. Seria um erro continuar o que estávamos fazendo. A COVID-19 veio para nos ensinar. Respeitando as orientações da Agência de Inovação da UFRJ, departamento responsável pela Propriedade Intelectual da universidade, criamos um Modelo de Negócios, que estamos apresentando para diferentes investidores do setor privado [4]. O Estado do Rio de Janeiro, mesmo na crise que passa, se mostrou sensível ao assunto. O Secretário de Transportes, Delmo Pinho; o Secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação, Sérgio Azevedo; o presidente da FAPERJ, Jerson Lima Silva; o diretor da COPPE, Romildo Toledo são alguns dos que trabalham seriamente para encontrar um caminho, sempre visando à participação da indústria.
Como em toda a batalha, decisões estratégicas e ações táticas desempenham um papel decisivo. Em tecnologia, ações táticas são, por exemplo, capacidade de cálculo, conhecimento de materiais, habilidade em estudos analíticos e de simulação, domínio de fundamentos técnicos e científicos, aquelas coisas que os professores ensinam nas universidades ou fazem parte do acervo intelectual das empresas de Engenharia. A decisão estratégica corresponde ao que se chama “política tecnológica”, aquelas coisas que os Poderes Executivo e Legislativo devem ou deveriam traçar. No Brasil, somos competentes em ações táticas, mas nos falta estratégia. Ao menor esboço de definições estratégicas, respondemos taticamente com vigor e sucesso. O programa do álcool, a exploração de petróleo, o desenvolvimento da agricultura e pecuária, e, por que não, o próprio projeto MagLev-Cobra, comprovam essa tese.
A debilidade na estratégia tecnológica brasileira encontra-se mais na irregularidade do fomento do que no estabelecimento de rumos. Destaco que cerca de R$17 milhões foram investidos no projeto MagLev-Cobra (de 2000 a 2018), recursos de fomento à Ciência e Tecnologia. E agora ele vive em situação de penúria. Não adianta alimentar uma criança durante vários anos. Um mês sem receber leite é suficiente para a sua morte.
Por exemplo, as diretrizes do MCTI, Portaria 1.122/2020, são claras, objetivas e bem definidas [7]. O recente edital da FINEP – Materiais Avançados e Minerais Estratégicos – segue a orientação dessa resolução [8]. Mas quando se constata o total de recursos alocados (R$10 milhões), verifica-se que o discurso não vem acompanhado de ações efetivas. E ação, aqui, significa recursos financeiros. Para um país rico em minerais estratégicos, a quantia é ínfima, como foram ínfimos os recursos do FUNTEC 2018, o último FUNTEC divulgado pelo BNDES.
Não existe país no mundo com desenvolvimento social, sem desenvolvimento tecnológico
Essa afirmação não tem contra exemplo para ser contestada. O princípio das vantagens comparativas, enunciado pelo meu xará inglês, Ricardo, em 1820, que nos coloca até os dias de hoje como meros exportadores de matéria prima e produtos agrícolas; princípio esse seguido e respeitado por muitos dos nossos compatriotas, desde 1500, está errado. Ele só foi formulado para favorecer a revolução industrial inaugurada pela Inglaterra no século XVIII. A China, nos últimos 40 anos, desde o fim da Revolução Cultural, presta-se muito bem como exemplo. Foi o país que mais contribuiu para cumprir os objetivos 1 e 2 de sustentabilidade da ONU [9], erradicando fome e miséria do país, graças ao desenvolvimento tecnológico bem direcionado.
Pobre de nós se não aprendermos com nossos próprios erros e se não nos inspirarmos nos acertos dos outros. A nossa imaturidade política para decisões estratégicas merece ser comparada com a paixão pelo futebol. Tratamos os partidos políticos como se fossem times do coração. Não reconhecemos a derrota, continuamos torcendo cegamente. Reclamamos do juiz, da bola, do gramado, nunca erramos. Temos uma quantidade e qualidade de partidos políticos comparável aos times do campeonato brasileiro, considerando séries A e B juntas. Se não houver uma mudança, vamos continuar amargando derrotas, como foi o inesquecível 7×1 na Copa de 2014. Está na hora de nos unirmos para formar uma grande seleção, uma grande nação.
O projeto MagLev-Cobra, se devidamente apoiado, lubrificará a engrenagem econômica do Brasil. Não se trata apenas de oferecer uma solução para o crucial problema da mobilidade das nossas cidades, com uma nova e futurística organização urbana. O projeto utiliza, nos imãs e nos supercondutores, minerais estratégicos que a natureza generosamente nos beneficiou. A CODEMGE inaugura em 2021 o LabFabITR, a primeira fábrica de imãs de terras-raras do Brasil. Caminho similar pode ser trilhado para a fabricação de supercondutores. Até hoje exportamos a matéria prima e importamos imãs e supercondutores, que possuem inúmeras aplicações industriais. O projeto ainda utiliza conversores eletrônicos, fabricados pela WEG; necessita de veículos leves, compatíveis com a produção da Marcopolo, da Embraer, da Aeromóvel, para citar algumas alternativas; emprega motores lineares, com larga aplicação e produzidos com qualidade pela Equacional, empresa paulista; trabalha com fluídos criogênicos, especialidade da empresa carioca GB Criogênicos. Trata-se de um projeto catalizador de talentos para a essencial área de tecnologia e ciência.
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