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Mulheres e ciências exatas – Como nascem os estereótipos

27/04/2021
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Mulheres e ciências exatas – Como nascem os estereótipos

O mito de que “mulheres não são boas em matemática” ainda é transmitido às novas gerações. Meninas são incentivadas a buscar realizações profissionais em áreas que não envolvam ciências exatas e, apesar do crescente número de mulheres atuantes em setores antes considerados territórios masculinos, poucas são aquelas que não passaram, em algum momento de sua vida, pelo constrangimento de ter sua competência posta em dúvida em razão de sua identidade feminina.

A ideia de que mulheres seriam pouco aptas às atividades científicas é um preconceito relativamente recente na história ocidental. No passado, considerava-se que as mulheres possuíam entendimento maior da natureza do que os homens. Eram elas as responsáveis pela produção de remédios e de uma série de artigos de uso diário, para cujo preparo era necessário domínio do que hoje chamamos de química, botânica e  farmácia. Com a queda do Império Romano e a consequente concentração do conhecimento nos mosteiros e conventos, muitas mulheres tiveram a oportunidade de receber educação formal nas intuições cristãs, onde tinham aulas de latim, filosofia, matemática e botânica. Religiosas como Heloísa de Argenteuil e Hildergard de Bingen tiveram seus nomes grafados na história como matemáticas, médicas e filósofas.

Durante a Idade Média, mulheres de diferentes classes sociais tinham representatividade no exercício do que hoje consideramos ciência. Estudos estatísticos revelam que, durante esse período, o auge da atuação feminina na área científica se deu nos 1200s, caindo durante a Renascença quando as mulheres foram gradualmente afastadas dessas atividades. Valorizado pela sociedade, o conhecimento científico passou a ser visto como instrumento de status e poder, assumindo um caráter masculino.

Com o emprego das novas metodologias de pesquisa preconizadas por Francis Bacon, a ciência deixou de ser praticada no âmbito familiar e ganhou espaços próprios, profissionalizando-se. No discurso de abertura da Real Sociedade de Londres, em 1660, Henry Oldenburg afirmou que um dos objetivos da instituição era desenvolver uma filosofia masculina. A instituição, que foi a primeira sociedade científica do ocidente, não admitia mulheres entre os seus membros, no que foi imitada pelas entidades análogas criadas posteriormente.

Ironicamente, enquanto a Nova Ciência ganhava corpo, a superstição aumentava entre a população e atividades anteriormente praticadas por mulheres passaram a ser vistas como bruxaria. Em patente paradoxo, a valorização da lógica coincidiu com o pico da caça às bruxas na Europa afetando, principalmente, mulheres das classes econômicas mais baixas. Nas classes superiores, muitas cientistas atuaram como colaboradoras anônimas de seus maridos ou irmãos. É o caso da astrônoma polonesa Elizabeth Catherina Koopmann, esposa de Johannes Hevelius ou da química Marie-Anne Pierrette Paulze, esposa de Antoine Lavosier. Elizabeth e Marie-Anne continuaram publicando trabalhos de seus maridos mesmo após a morte dos companheiros. São muitos os exemplos de pesquisadoras que viviam a mesma situação.

Com o advento da Revolução Industrial, as mulheres passaram a ser socialmente aceitas como transmissoras de conhecimento, ou seja, como professoras, e a docência tornou-se a principal opção de trabalho para mulheres com instrução. A elas cabia apenas a tarefa de repassar, e não de produzir conhecimento.

A adoção de políticas de ensino universal no século XIX reforçou o estereótipo da mulher com dificuldade em raciocínios matemáticos, pois a educação da população, pensada como forma de se alcançar o progresso, não era igualitária entre homens e mulheres. Estudando em escolas separadas, meninos e meninas eram submetidos a diferentes currículos. Latim e matemática, disciplinas exigidas nos exames para admissão nos ensinos superiores, não eram ministradas nos colégios femininos europeus. Para elas, o aprendizado não ia além das quatro operações básicas. No Brasil não era diferente. Como ser bom em algo cujo conhecimento lhe é negado?

O estereótipo foi corroborado pela ciência ao longo do século XIX. A frenologia provava, por meio da análise da forma e volume dos crânios, que as mulheres possuíam intelecto inferior ao dos homens.  Por terem uma massa encefálica menor, elas seriam mais sujeitas a fadiga mental, portanto incapazes de uma atividade cerebral longa ou séria. Mulheres também comiam menos, o que significava menos energia a ser transformada em pensamento. Segundo Charles Darwin, os homens eram superiores às mulheres no reino da reflexão profunda, razão e imaginação. O importante e influente naturalista utilizava como argumento o fato de que poucas mulheres se destacavam na área científica.

Essas teorias, assim como várias outras elaboradas posteriormente, desconsideravam questões culturais e as diferenças entre a educação formal feminina e masculina. Uma corrida só é justa quando todos possuem a mesma linha de partida. Mulheres como Ada Lovelace que escreveu, ainda no século XIX, um algoritmo considerado o primeiro programa de computador, somente puderam exercer seu potencial graças a uma educação diferenciada.

A ideia de homens e mulheres com intelectos distintos ainda é respaldada por parte da comunidade científica. Uma crença comum nos dias atuais é a de que as mulheres possuem menor aptidão para trabalhar com representações tridimensionais, apesar de milhares de mulheres terem sustentado suas famílias,por séculos, confeccionando modelos com superfícies curvas. Ou alguém afirmaria que costureiras, muitas das quais autodidatas, não possuem visão tridimensional?

Estudos demonstram que a percepção de espaço reflete características do ambiente vivenciado pelo ser humano durante a infância e não seu gênero. Estereótipos são construídos pela sociedade, mas podem ser desmistificados pelo conhecimento da História.

A autora é Graduada em Geologia pela UFRRJ (1988), mestre em Geologia pela UFRJ (1992) e doutora em Geociências (Mineralogia e Petrologia) pela Universidade de São Paulo (1998). Professora adjunta da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro desde 1994, dedica-se ao estudo de rochas ígneas e metamórficas e à pesquisa da história da mineração no Rio de Janeiro.  Na área de extensão, coordena  projetos  de divulgação da Geologia em escolas do ensino fundamental e médio.

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