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Todas as ciências são humanas e nenhuma ciência é exata

08/12/2020
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Todas as ciências são humanas e nenhuma ciência é exata

Em primeiro lugar, é forçoso reconhecer que não é uma tarefa fácil fazer uma classificação de todo campo de conhecimento científico. Evidentemente, qualquer classificação das ciências deve, necessariamente, contemplar seu próprio desenvolvimento, os processos de unificação de campos diferentes ou o surgimento de novos, bem como, conseguir enquadrar corretamente as áreas que ficam nas interfaces e que trazem dubiedade sobre seu melhor posicionamento.

A atual classificação adotada, considera e prioriza principalmente o problema da separação entre sujeito (cognoscente) e objeto (do conhecimento). Este, nas ciências ditas exatas – como física, química e biologia, guarda um distanciamento do sujeito a ponto de, no processo do conhecimento, ou seja, na interação entre sujeito e objeto, seja possível um conhecimento “verdadeiro” do objeto sem qualquer contaminação durante esta interação. 

Esta base de classificação apresenta alguns problemas justamente quando as ações do sujeito passam a interferir no resultado almejado, que é o caso das ciências humanas. Esta forma de classificação também apresenta um problema maior quando olhamos o desenvolvimento científico do ponto de vista histórico, enfraquecendo sobremaneira a classificação daquelas ciências no campo das chamadas “ciências exatas”, revelando que a exatidão é um termo completamente inadequado. 

 

Todas as ciências são humanas

Todas as ciências, estejam em qualquer campo situadas, são formas de conhecimento que se desenvolvem historicamente, de maneira que todas as teorias científicas são construções lógicas que procuram estabelecer através de suas leis ou princípios uma forma e uma regra de relacionamento entre suas partes. Nas chamadas ciências indutivas, as leis ou as formas de regularidade internas advêm de evidências empíricas obtidas através dos sentidos e organizadas em uma teoria que procura enquadrar todos os fenômenos por meio de um processo dedutivo contidos nessas mesmas leis ou princípios. 

É fundamental acrescentar que essas leis ou princípios têm que ser validadas por experimentações que as comprovem, bem como a sua universalidade. Por exemplo, na mecânica, que é a ciência do movimento, quando o movimento dos objetos está muito distante da velocidade da luz, a mecânica clássica, a princípio, enquadra qualquer problema estudado nas 3 leis de Newton (1642-1727). Essa teoria, para atingir seu estágio atual, se desenvolveu ao longo de quase dois mil anos. Somente em 1687, com a publicação do famoso livro de Newton (Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural ) foi possível atingir este nível de maturidade a ponto de constituir em uma verdadeira teoria.

Dessa forma, mesmo a física, que estuda o movimento e outros fenômenos da natureza, é uma construção histórica e, portanto, humana. Neste sentido, quando comparada com as ciências humanas, na classificação atual, sob este ponto de vista histórico, elas em nada diferem quanto a seu desenvolvimento. A diferença reside na questão da separação entre o sujeito e o objeto, quando nas ciências humanas esta separação é de difícil execução e em certos casos até impossível.

 

Por que nenhuma ciência é exata?

Se o desenvolvimento científico é histórico, toda teoria científica tem uma dimensão provisória, já que, a princípio, pode ser alterada ou mesmo completamente substituída por outra sempre que um novo fenômeno que não se enquadre no corpo da teoria a coloque em xeque. Isto significa que os seres humanos vão também construindo ao longo da história novos instrumentos e formas de conhecimento que possam melhorar ou substituir teorias que não responderem ao desafio colocados por novos fenômenos. Assim, não faz muito sentido se falar em exatidão de um conhecimento que é provisório e pode ser reformulado ou até mesmo negado. As novas teorias da física, surgidas no começo do século XX, confirmam o que afirmamos. A descoberta de que a velocidade da luz é uma constante e funciona como um limite máximo que um corpo pode atingir, obrigou os físicos a reformularem a mecânica clássica e construírem a teoria da relatividade restrita.

Olhando no sentido inverso, falar em ciência exata significaria que as teorias deste campo de conhecimento teriam atingido um estágio definitivo e não poderiam nunca mais serem modificadas. Se isto acontecesse, o conhecimento se negaria a si próprio e atingiria um status de dogma, ou seja, uma verdade absoluta, em hipótese alguma questionada e colocada em um pedestal de perfeição e, contraditoriamente, petrificada. Felizmente isto não acontece. O processo de conhecimento é dinâmico, vulnerável à crítica e ao questionamento, inclusive o mais radical possível que é a sua substituição por um outro mais adequado, com maior poder de interpretação e explicação dos fatos.

 

O conhecimento aplicado e a tecnologia dependem das outras ciências

Caso se concretize a proposta presidencial de desestimular o ensino das ciências sociais e da filosofia, os resultados logo se farão sentir sobre o conjunto da produção científica no país, inclusive nas ciências aplicadas e na tecnologia. Isto porque cedo implicará na queda de qualidade do ensino em todos os níveis e, consequentemente, na própria Universidade que passará a admitir alunos menos preparados e com deficiências crescentes de qualidade em suas formações. Além do mais, a produção científica e tecnológica em todas as áreas é cada vez mais interdisciplinar. Equipes de trabalho são compostas por pessoas com formações diferentes, inclusive das áreas de ciências humanas, como economistas, sociólogos do trabalho, especialistas em gestão do conhecimento, profissionais de RH e administradores voltados para o treinamento, entre outros. Isto vai acarretar uma queda da produtividade do trabalho, trazendo enormes prejuízos para o país e tornando os setores produtivos menos competitivos e mais vulneráveis à concorrência internacional e à desindustrialização.

Por último, a questão da formação científica estar apoiada no pensamento crítico. A própria ciência é o pensamento crítico por excelência. Segundo o filósofo da ciência Karl Popper (1902-1994), as teorias científicas são construídas através de “Conjecturas e Refutações”, título de um de seus livros mais famosos. Neste sentido, a profissão de cientista é talvez a única que difira significativamente de todas as outras. Pela própria natureza de seu trabalho, eles atuam explicitando e consertando constantemente seus erros, elaborando novas conjecturas mais consistentes e novamente submetendo-as ao crivo da realidade.

Num outro sentido, o enfraquecimento das áreas de ciências humanas e filosofia atinge em cheio a formação da cidadania. É por meio dos conhecimentos vindos dessas áreas, em conjunto com as disciplinas mais específicas de cada carreira, que formamos cidadãos conscientes e com espírito crítico capazes de lutar pelas liberdades e pela democracia no país. Portanto, colocar as ciências sociais e a filosofia em um plano secundário, no conjunto do ensino das outras disciplinas, faz parte de um projeto autoritário, ávido pelo enfraquecimento da cidadania e de manipulação através da propaganda e de proposições estapafúrdias como a da Escola sem Partido e outras sandices do gênero.

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